Corpos em Guerra: A Construção Histórica da Masculinidade e a Violência Sexual como Arma.
Anne Carson – escritora canadense de língua inglesa conhecida em maior medida pelos livros de poesia que escreveu e por suas traduções de literatura grega antiga. Primeira mulher a ganhar o TS Eliot Prize.
Por Zina Covesi - março 2025.
A
poeta e classicista canadense, Anne Carson, em seus escritos afiados sobre
gênero e poder, observa que a masculinidade se ergueu, ao longo da história,
sobre um alicerce perverso:
A ideia de
que o corpo da mulher é um território a ser conquistado, controlado e possuído.
Em
ensaios como The Gender of Sound (1995)
(O Gênero do Som) , Carson desvela como sociedades antigas — da Grécia a Roma —
normalizaram a supressão da voz e da autonomia femininas, reduzindo a mulher a
um objeto sonoro, cuja existência
era regulada pelo desejo e pela lei masculina. Essa dinâmica, não é uma
relíquia do passado, mas uma chave para entender por que a violência sexual
persiste como arma de guerra em conflitos modernos, do Congo à Ucrânia.
A Posse como Linguagem do Poder.
A
dominação masculina não se limita à força física: é uma narrativa cultural
inscrita em mitos, leis e tradições. Na Odisseia
de Homero, por exemplo, Penélope é elogiada por seu silêncio, enquanto as vozes
das mulheres que desafiam a ordem — como as sereias — são monstros a serem
silenciados.
Na
Atenas clássica, mulheres eram legalmente senhoras, sob tutela, de um homem e
seu corpo visto como propriedade transferível (do pai para o marido). Ainda
hoje em 2025 os casamentos religiosos cristãos tendem a perpetuar essa ideia,
visto que o pai entrega a filha ao marido.
Essa
"economia do corpo feminino", como define Carson, transformou a
mulher em moeda de troca simbólica e literal, sustentando hierarquias de gênero
que ecoam até hoje.
Da Casa para o Campo de Batalha: A
Violência Sexual como Estratégia
Se
o corpo da mulher foi historicamente um marcador de honra masculina, sua
violação em guerras torna-se uma ferramenta para humilhar comunidades inteiras.
Como observa a pesquisadora Carol Harrington,
Estupros em
massa não são "danos colaterais", mas táticas calculadas para
desintegrarlaços sociais, aterrorizar populações e apagar identidades.
Atualmente (maio/24) temos 21 zonas de guerra, incluindo Palestina, Sudão, Ucrânia, Haiti, Mianmar e a República Democrática do Congo.
Na
Bósnia (1992-1995), estima-se que 20
mil a 50 mil mulheres foram estupradas por tropas sérvias, muitas vezes em
campos de detenção criados especificamente para esse fim.
Na
RD Congo, onde o estupro é chamado
de "o custo do minério",
milícias usam a violência sexual para controlar regiões ricas em recursos.
A
desumanização como projeto ganha urgência: ao tratar corpos femininos como territórios a serem saqueados, a guerra
atualiza o mito ancestral de que a mulher é um espaço vazio, disponível para ocupação.
Resistências
Embora
a violência sexual em guerras tenha sido por séculos, ignorada ou tratada como
inevitável, avanços legais recentes — como o reconhecimento do estupro como
crime contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional — sugerem uma
ruptura parcial com essa lógica.
Enquanto
a masculinidade for construída na fantasia de posse, qualquer progresso será
frágil, portanto, desmontar uma narrativa de milênios exige mais que leis, diz
a autora. "Exige reimaginar quem tem direito a um corpo."
Para Além da Guerra
A ligação entre a dominação
cotidiana e a violência extrema em guerras não é acidental: é sistêmica.
Quando um homem agride uma parceira, quando um Estado negligencia
políticas de proteção, ou quando um soldado usa estupro como tática, todos
operam através da mesma estrutura de que a mulher é um espaço vazio, disponível
para ocupação.
Rompê-la
exige sim punição aos agressores, e a desconstrução radical de como ensinamos
meninos e meninas a habitar seus corpos e principalmente os corpos
alheios.
“A guerra começa quando falhamos
em ver o outro como um ser que respira. Respirar, aqui, é também resistir”. Anne Carson.
Referências:
CARSON, Anne. The Gender of Sound. 3. ed. São Paulo: A New
Direction Book, 1995. ISBN 0-8112-1303-1.
FIGULA
, Jadwiga . ONU verificou mais de 3,6 mil casos de violência sexual durante
guerras em 2023. ONU News Perspectiva Global Reportagens Humanas, 2024.
Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2024/04/1830716. Acesso em: 17 mar.
2025.
MURAD,
Nadia. Que eu seja a última: minha história de cárcere e luta contra o
Estado Islâmico. 1. ed. São Paulo: Novo Século, 2019. ISBN 978-8542815672.


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